SEDUÇÃO

A poesia me pega com sua roda dentada,
me força a escutar imóvel
o seu discurso esdrúxulo.
Me abraça detrás do muro, levanta
a saia pra eu ver, amorosa e doida.
Acontece a má coisa, eu lhe digo,
também sou filho de Deus,
me deixa desesperar.
Ela responde passando
a língua quente em meu pescoço,
fala pau pra me acalmar,
fala pedra, geometria,
se descuida e fica meiga,
aproveito pra me safar.
Eu corro ela corre mais,
eu grito ela grita mais,
sete demônios mais forte.
Me pega a ponta do pé
e vem até na cabeça,
fazendo sulcos profundos.
É de ferro a roda dentada dela.

Adélia Prado/ Bagagem/ 1993

MAR ABERTO

mar aberto

Por frestas,
toco a luz que se escancara
para além dessas treliças.

Por farpas,
tenho gotas de oceano
e sede, e sede,
e sede.

Edival Perrini/ O olho das águas/ 2009

NÃO SEI FAZER POEMAS SOBRE GATOS

Não sei fazer poemas sobre gatos
se tento logo fogem
furtivas
as palavras
soltam-se ou
saltam
não capturam do gato
nem a cauda
sobre a mesa
quieta e quente
a folha recém-impressa
página branca com manchas negras:
eis o meu poema sobre gatos

Ana Martins Marques/ O livro das semelhanças/ 2015

DILÚVIO

diluvio_foto

Na foto fora de foco
não está a imagem
verdadeira
que evito?

Se me reconheço nela,
e se cala a dúvida
teimosa
que não se calava,
isto é cair em si?

E o trovão que vem depois
é anúncio da tempestade
ou o sinal
definitivo
de que ainda cabe uma arca?

Edival Perrini / www.edivalperrini.com.br / 2016

MINAS

Se eu encostasse
meu ouvido
no seu peito
ouviria o tumulto
do mar
o alarido estridente
dos banhistas
cegos de sol
o baque
das ondas
quando despencam
na praia

Vem
escuta
no meu peito
o silêncio
elementar
dos metais

Ana Martins Marques/ O livro das semelhanças/ 2015

Edival Perrini

Edival Antonio Lessnau Perrini nasceu em Curitiba-PR, em 23 de outubro de 1948, onde cresceu e reside. Saiba +

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