Tag: poema

“Lavo, lavo o meu poema”

lavo, lavo o meu poema
até deixá-lo limpinho
de tudo o que o impede
de ser claro como a água

lavo, lavo o meu poema
com sabão e com escova
quero que seja escovado
da mais mínima sujeira

lavo, lavo o meu poema
que é só meu, mas é de todos,
sendo limpo, sendo lindo,
cada um o julga seu,
todos o querem para si

lavo, lavo o meu poema
lavo, duas, lavo três
lavo quantas forem precisas
as vezes de o bem lavar

Leopoldo Scherner/ Traços do Ofício/ 2004

ABRIGO

Tempestade abrigo

um vento sul me transtorna

náufrago de noite interminável,
resta-me o fulgor da tela em branco

sobreviver é permanecer acordado
dentro do poema

Edival Perrini/ www.edivalperrini.com.br/2013

NO SONHO E NO POEMA

SONHO E POEMA

no sonho e no poema,
por não poder
me distraio

no sonho e no poema
há um poço,
raio que verte versos
se ouço

no sonho e no poema
há ossos,
manto de agonia
e espanto

no sonho e no poema,
por não poder
é que posso

Edival Perrini/ www.edivalperrini.com.br/ 2015

DE NOVO, O POEMA

poema imagem

A busca carnal pelo poema
deve ser a busca pelo amor
não correspondido, o seio pleno
de leite, vazando no vazio
a cada nova tentativa em vão
da boca.

A busca infernal pelo poema,
a sobrevivência selvagem do
poeta, é transformar metáforas,
sugar a luz, proteína das
palavras. Depois, descansar
nos versos.

Edival Perrini/ www.edivalperrini.com.br / 2013

O POEMA

Não sou eu que escrevo o meu poema:
ele é que se escreve e que se pensa,
como um polvo a distender-se, lento,
no fundo das águas, entre anêmonas
que nos abismos do mar despencam.

Ele é que se escreve com a pena
da memória, do amor, do tormento,
de tudo o que aos poucos se relembra:
um rosto, uma paisagem, a intensa
pulsação da luz manhã a dentro.

Ele se escreve vindo do centro
de si mesmo, sempre se contendo.
É medido, escrito, minudente,
música sem clave ou instrumentos
que se escuta entre o som e o silêncio.

As palavras em que em vão o invento
não são mais que ociosos ornamentos,
e nenhuma gala lhe acrescentam.
Seja belo ou, ao invés, horrendo,
a ele que cabe todo o engenho,

não a mim que apenas o contemplo
como um sonho que se sustenta
sobre o nada, quando o mito e a lenda
eram as vísceras de que o poema
se servia para ir se escrevendo.

Ivan Junqueira/ Essa Musica/ 2014

Edival Perrini

Edival Antonio Lessnau Perrini nasceu em Curitiba-PR, em 23 de outubro de 1948, onde cresceu e reside. Saiba +

Arquivo

Newsletter

Cadastre-se e receba nosso boletim informativo:

Aceito receber emails